O papa Leão XIV criticou, neste sábado (7), a violência contra crianças durante uma visita a Casavalle, bairro pobre de Montevidéu, capital do Uruguai. A região é considerada uma das mais violentas do país e registra tiroteios frequentes relacionados ao tráfico de drogas.
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O pontífice chegou de carro ao bairro e percorreu suas ruas sob forte esquema de segurança, com milhares de policiais. A visita ocorreu no segundo dia de uma viagem de 12 dias pela América do Sul.
"Não podemos ignorar que há crianças no Uruguai que deixam de ir à escola por medo de não voltar para casa", afirmou Leão XIV. O discurso foi feito em um palco montado ao ar livre, ao lado da paróquia Nossa Senhora de Guadalupe.
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Violência e pobreza
"Não podemos ficar de braços cruzados quando sabemos que uma mãe não tem condições de alimentar os próprios filhos", disse o papa.
"Uma criança deste país, tão rico em recursos, não deveria ir dormir com fome. Também não deveria deixar de ter acesso à educação e a um futuro digno por causa da insegurança nas ruas", acrescentou.
Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), quatro em cada dez crianças uruguaias vivem na pobreza.
O pontífice também condenou os casos de violência que terminam em morte. Durante a visita, ele abençoou 12 novas moradias populares construídas em Casavalle com financiamento da Igreja Católica.
A taxa de homicídios em Casavalle e nos bairros vizinhos chega a 41,7 por 100 mil habitantes, segundo dados oficiais. O índice é quatro vezes maior que a média nacional e está relacionado a confrontos entre grupos armados do narcotráfico.
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A violência aumentou nos últimos anos no Uruguai, que se tornou uma rota importante para o transporte de cocaína em direção ao norte. Tradicionalmente, o país era considerado um dos mais seguros e prósperos da América Latina.
Moradores de Casavalle dizem que os tiroteios fazem parte da rotina do bairro.
"Aqui tudo é muito instável. O bairro passa de tranquilo a extremamente violento em questão de minutos", contou à AFP Claudia, uma enfermeira de 33 anos que não quis revelar o sobrenome por medo de represálias.
"Ver um homicídio na porta de casa é terrível. Uma moto parou na frente da minha casa e atiraram várias vezes contra uma pessoa. Você não sabe o que fazer quando seus filhos veem um corpo estendido no chão", relatou.
Os moradores esperam que a visita de uma hora do papa ajude a melhorar a situação.
"Em 62 anos de vida, nunca vi as calçadas tão limpas e tanta segurança. O bairro ficou mais tranquilo", disse Mario Tabárez, dono de uma oficina de pintura a duas quadras da paróquia.
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Casamento e inteligência artificial
Ainda neste sábado, Leão XIV alertou para os riscos de desumanização provocados pela inteligência artificial. Ele pediu que escolas e universidades façam um uso responsável da tecnologia, colocando as pessoas acima dos algoritmos.
À noite, o papa participou de uma vigília de oração no Estádio Centenário, em Montevidéu, diante de cerca de 60 mil pessoas. Durante o encontro, incentivou os jovens a se casarem e formarem famílias.
"Jovens, tenham coragem de dar esse passo, casando-se e formando uma família. Não tenham medo do 'para sempre'!", afirmou.
O pontífice também pediu que os casais tenham filhos, mesmo diante das dificuldades. "Abram suas casas à vida, mesmo quando o mundo disser que um filho é um peso", disse.
A taxa de fecundidade na América Latina está em queda. Segundo um estudo recente do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), o número médio de filhos por mulher passou de 5,8 em 1950 para 1,8 em 2024.
"Ter o papa entre nós é um golaço", afirmou o cardeal Daniel Sturla, arcebispo de Montevidéu, durante o encontro.
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José Aguilar, um venezuelano de 56 anos que vive no Uruguai há quatro anos, disse sentir um "renascimento da fé" no país. Ele destacou que o papa abordou temas como suicídio, família e energia limpa, assuntos que, segundo ele, são importantes para a população.
"Este é um papa que consegue se conectar muito com as pessoas", afirmou Eliana Mrak, que já havia visto o pontífice neste ano em Madri e Barcelona.
Após o discurso, a multidão repetiu em coro "Papa Leão, te queremos de montão!", sob aplausos e assobios.
Mais cedo, em Paysandú, o papa celebrou a primeira missa da viagem por Uruguai, Argentina e Peru. Durante a cerimônia, elogiou o mate, bebida tradicional do país, que, segundo ele, "nos ensina a compartilhar e a estar juntos".
Leão XIV também pediu que os fiéis construam pontes e transmitam a alegria da fé. Milhares de pessoas acompanharam a celebração com cuias de mate e garrafas térmicas nas mãos. Paysandú fica a cerca de 350 quilômetros a noroeste de Montevidéu.
O Uruguai é o país mais laico da América Latina. Apenas 35% da população se declara católica, segundo pesquisa de 2026 do Latinobarómetro.
No domingo (8), o papa visitará a cidade uruguaia de Florida. Depois, seguirá para a Argentina, país de origem de seu antecessor, o papa Francisco.


