A Justiça de São Paulo decretou uma nova prisão preventiva para Luiz Eduardo Auricchio Bottura, empresário que ficou conhecido como o "rei dos processos". Ele é investigado por suspeita de ter aplicado golpes em 500 pessoas no Brasil e, segundo o Ministério Público, usaria a Justiça para fraudar indenizações, coagir advogados e intimidar autoridades.
O g1 mostrou que Bottura teve um mandado de prisão expedido pela Justiça em 2024, mas deixou o Brasil e foi para a Itália. Na época, o nome dele foi incluído na Difusão Vermelha da Interpol, alerta internacional para localizar e prender provisoriamente pessoas procuradas pela Justiça.
Em 2025, Bottura acabou sendo preso pelas autoridades italianas enquanto dirigia um Maserati GranCabrio, carro de luxo avaliado em cerca de R$ 1 milhão. A Justiça italiana, porém, negou o pedido de extradição feito pelo Brasil, e ele foi liberado.
Em março deste ano, o Fantástico encontrou Bottura levando uma vida cercada de luxo em Selvazzano Dentro, cidade vizinha a Pádua e a poucos quilômetros de Veneza. Ao ser confrontado pela reportagem no estacionamento de um condomínio, ele negou todas as acusações (veja mais abaixo).
Agora, a Justiça de São Paulo expediu um novo mandado de prisão preventiva e determinou novamente o envio de uma cópia à Polícia Federal para difusão vermelha. O mandado foi expedido pela 21ª Vara Criminal Central de São Paulo e assinado pelo juiz Gustavo Comin Otaviano em 11 de setembro.
A ordem também determina a prisão preventiva de sua advogada Natália Bérgamo Pascucci. O documento determina que os dois sejam recolhidos a uma unidade prisional e fiquem à disposição da Justiça pelo crimes dos artigos 288, 339 e 138 do Código Penal, correspondentes a associação criminosa, denunciação caluniosa e calúnia.
No caso de Natália, o mandado informa que ela é advogada e determina que, se presa, seja recolhida em sala de Estado-Maior ou, na falta desse espaço, em prisão domiciliar. A OAB de São Paulo e a OAB do Distrito Federal também deverão ser comunicadas quando o mandado for cumprido.
O g1 tenta conta com a defesa de ambos.
Por que há uma nova difusão vermelha?
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Bottura já havia sido preso na Itália em 2025, depois de ser localizado pela Guardia di Finanza em Selvazzano Dentro, na região do Vêneto. Na época, ele estava na lista vermelha da Interpol e era alvo de um mandado de prisão preventiva expedido pela Justiça de São Paulo.
A prisão ocorreu após as autoridades italianas identificarem movimentações financeiras consideradas suspeitas. Bottura foi localizado enquanto dirigia uma Maserati GranCabrio.
A polícia italiana detalhou ao g1 que a suspeita da presença do brasileiro no território de Pádua surgiu durante atividades investigativas e análise de operações financeiras que os agentes consideraram estar ligadas ao foragido da Interpol.
Os policiais do Núcleo de Polícia Econômico-Financeira de Pádua, então, passaram a seguir o rastro financeiro de Luiz Eduardo na Itália.
Ainda conforme a polícia, após as investigações, Bottura foi localizado e detido enquanto dirigia a Maserati GranCabrio.
"Os militares procederam com a prisão provisória do indivíduo, informando as autoridades competentes e o encaminhando à prisão de Pádua, ficando à disposição do Presidente da Corte de Apelação de Veneza, que validou a prisão enquanto se aguarda que o Estado estrangeiro solicite a extradição por meio do envio da documentação apropriada através dos canais diplomáticos", disse a polícia italiana, ao g1.
E ressaltou: "De acordo com o princípio da presunção de inocência, a culpa em relação ao caso em questão só será definitivamente comprovada se e quando houver uma sentença condenatória definitiva emitida pelo tribunal competente".
O Brasil, então, havia pedido a extradição de Bottura para que ele fosse levado de volta ao país depois dessa prisão. A Justiça italiana, porém, negou a extradição. Segundo o g1 apurou, o Brasil não recorreu da decisão. Com isso, Bottura permaneceu no país europeu.
A nova ordem de prisão, portanto, ocorre depois dessa negativa da extradição anterior. A Justiça de São Paulo determinou novamente o envio do mandado à Polícia Federal para difusão vermelha, mecanismo da Interpol utilizado para localizar pessoas procuradas internacionalmente e solicitar sua prisão provisória, com vistas a procedimentos de extradição ou medidas semelhantes.
A difusão vermelha não é, por si só, uma ordem de prisão válida automaticamente em todos os países. A prisão depende das regras e das decisões das autoridades do país onde a pessoa for localizada.
O mandado, entretanto, não detalha os fatos que deram origem às acusações nem apresenta a fundamentação da decisão que levou à prisão preventiva.
Quem é Luiz Eduardo Bottura
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Bottura foi alvo de reportagens anteriores do g1 e do Fantástico. Em março deste ano, reportagem do Fantástico mostrou que ele vivia em Selvazzano Dentro, próximo a Pádua, enquanto aguardava na Itália o andamento do processo relacionado ao pedido de extradição.
Segundo o Ministério Público, Bottura é acusado de chefiar uma organização criminosa que utilizaria o sistema de Justiça para fraudar indenizações, coagir advogados, intimidar autoridades e movimentar processos forjados.
A reportagem também apresentou relatos de pessoas que afirmam ter sido prejudicadas por ele. Uma delas afirmou ter transferido cerca de R$ 7 milhões recebidos como herança para uma empresa no exterior após ser convencida por Bottura.
Bottura negou as acusações ao Fantástico. Disse que não chefia organização criminosa, não falsifica documentos e que os processos contra ele se baseiam em denúncias arquivadas.
Investigação aponta milhares de processos
Promotores e delegados ouvidos pelo Fantástico afirmaram que Bottura se especializou na produção de documentos falsos e no uso deles para abrir processos que criariam dívidas inexistentes.
"Nós apuramos que ele deve ter participado de mais de 3 mil ações", disse um promotor. "Em 327, foi condenado por litigância de má-fé, porque foi constatado pelo juízo que ele não estava jogando limpo", complementou. "Ele é considerado o maior litigante serial do Brasil", revelou o delegado Fabiano Barbeiro.
Durante a semana em que foi monitorado na Itália, Bottura seguiu uma rotina fixa: saídas diárias entre 11h e meio-dia, visitas à academia e a restaurantes. Ele circulava em uma Maserati e em um segundo carro de luxo avaliado em 40 mil euros (cerca de R$ 240 mil em conversão direta).
Em 2024, o Ministério Público de São Paulo pediu a prisão preventiva dele e da mulher, que chegou a ser detida e usa tornozeleira eletrônica no Brasil.
A investigação na Itália identificou movimentações financeiras consideradas suspeitas, incluindo a compra de um veículo de meio milhão de reais.
Confrontado pelo Fantástico no estacionamento do condomínio em que vive, Bottura negou todas as acusações. Disse que não chefia organização criminosa, que não falsifica documentos e que os processos contra ele se baseiam em denúncias arquivadas.
"Eu não tive mais de 200 processos na Justiça e ganhei praticamente todos. É uma mentira que eles falam", disse Bottura. Ele também afirmou ter sido alvo de vazamento ilegal de informações na Itália.
A investigação também identificou que a defesa de Bottura apresentou às autoridades italianas a informação falsa de que Henrique Pizzolato, extraditado para o Brasil em 2015, teria morrido na prisão. Pizzolato está vivo.
O caso levantou suspeitas sobre uma tentativa de manipular dados para evitar o retorno do foragido ao país. Segundo uma associação criada por pessoas que afirmam ter sido prejudicadas por ele, os prejuízos ultrapassam R$ 100 milhões.
Absolvido após ser acusado de golpes pela internet
Não é a primeira vez que Bottura enfrenta a Justiça. Segundo o g1 apurou, uma denúncia do Ministério Público de São Paulo o acusou de aplicar golpes na internet em vítimas de diversos estados.
A denúncia apontava que, entre 2005 e 2006, o empresário Luiz Eduardo Auricchio Bottura “induziu consumidores e usuários a erros, por via de indicação e afirmação falsa e enganosa sobre serviço de otimização de microcomputador, tendo enriquecido ilicitamente”.
Em 2010, o juiz Fábio Aguiar Munhoz Soares, da 17ª Vara Criminal Central de São Paulo, absolveu o empresário, segundo informou o Tribunal de Justiça de São Paulo em 30 de junho de 2010.
Segundo o magistrado, tratava-se de caso de absolvição sumária, "e não poderia o Ministério Público oferecer denúncia com fulcro nos mesmos elementos de informação anteriormente produzidos, os quais haviam sido analisados anteriormente em outro inquérito policial já arquivado".




