Uma adolescente de 16 anos recebeu um transplante de rim em Campinas (SP). A família acredita que o órgão pertencia a um goleiro de 14 anos que morreu em um acidente de trânsito em São Paulo.
A paciente de Rondônia trata a doença renal policística desde os 3 anos. Em setembro, a função do órgão caiu para 8% da capacidade total.
A família recebeu o aviso sobre o rim compatível na segunda-feira (28). O transplante ocorreu na madrugada de sexta-feira (30) na Unicamp.
Os pais se encontraram através das redes sociais, usando as poucas informações de receberam dos hospitais. A doação acabou aproximando as duas famílias em um momento de dor.
Ao todo, Miguel doou órgãos e tecidos que ajudaram a salvar 4 vidas. O SUS garante o sigilo sobre a identidade de doadores e receptores.
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Uma adolescente de 16 anos, moradora de Ji-Paraná (RO), que luta contra uma doença renal hereditária desde a infância, recebeu uma nova chance de vida após um transplante de rim realizado em Campinas (SP). A cirurgia, no entanto, ultrapassou as paredes do hospital e acabou conectando duas famílias separadas por milhares de quilômetros.
Contexto: Os familiares acreditam que o órgão recebido por Cáryta Micaelly pertencia a Miguel Meneses, um adolescente de 14 anos que morreu após um acidente de carro em São José dos Campos (SP). O menino passou por um "corredor de aplausos" depois que os pais optaram pela doação. As duas famílias acabaram se encontrando em um momento de dor.
➡️No Brasil, o processo de doação de órgãos é regulamentado por normas rígidas do Sistema Único de Saúde (SUS), que garantem o sigilo da identidade do doador e do receptor. Por isso, não há confirmação médica oficial de que rim recebido por Cáryta tenha sido doado por Miguel. Apesar disso, coincidências de datas, horários e características físicas levaram as famílias a acreditar que ele possa ter sido o doador.
A luta pela vida
Em conversa com o g1, o pai de Cáryta, Carlito de Oliveira Lopes, contou que a filha convive com a doença renal policística desde os três anos. Como não havia possibilidade de realizar o tratamento necessário em Ji-Paraná (RO), cidade onde moram, os pais passaram a levá-la ao Hospital da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por meio do Tratamento Fora de Domicílio (TFD).
🔎 Como funciona: O Tratamento Fora de Domicílio (TFD) é um serviço do SUS que permite ao paciente realizar procedimentos médicos em outro município ou estado quando não há atendimento na cidade de origem. O benefício pode incluir transporte, passagens e ajuda de custo.
No entanto, o tratamento regular não impediu o avanço da doença. A função renal de Cáryta diminuiu progressivamente, até chegar a 8% da capacidade em setembro deste ano. Ela teve o nome incluído na Lista de Transplantes e precisou implantar um cateter para iniciar sessões de hemodiálise.
“Foi uma situação difícil, nós começamos a orar e pedir a Deus, e clamar a Deus, foi um desespero grande”, contou o pai.
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Após semanas de acompanhamento, a falta de melhora no quadro de saúde aumentava a preocupação da família.
“Ele [o médico] falou assim: 'realmente é um procedimento que não vai resolver. A solução para a sua filha é transplante'”, relembra o pai.
A mãe de Cáryta, Shirley, já realizava exames como possível doadora, mas, no dia 28 de outubro, a família recebeu a ligação que mudaria tudo: um rim compatível havia surgido.
"Eu estava saindo do colégio, meu filho ligou para mim e falou: 'pai, vem tranquilo para casa, mas vem rápido, porque a médica ligou que apareceu um rim'”, destacou.
Mãe e filha viajaram às pressas de Rondônia para São Paulo. No Hospital da Unicamp, Cáryta foi internada e submetida a exames para avaliar as condições necessárias para o transplante. O rim já estava disponível para o procedimento, realizado na madrugada de sexta-feira, 30 de outubro. Segundo o pai, o órgão começou a funcionar de forma imediata, surpreendendo até a equipe médica.
“A gente entende como um milagre. Na mesma noite, na mesma madrugada, o rim começou a funcionar e no outro dia ela já fez xixi. Até as enfermeiras se surpreenderam com a forma da resposta do rim quando foi implantado nela”, contou Carlito.
A união das famílias
Segundo o pai, como há sigilo sobre a identidade do doador, os familiares de Cáryta receberam algumas informações da equipe médica: se tratava de um adolescente de 14 anos, 1,82m de altura e pesando 75kg. A partir dessas características, eles começaram a procurar notícias sobre possíveis doadores que correspondessem ao perfil informado.
Na mesma semana, o goleiro Miguel, de 14 anos, morreu após o carro em que estava com a família perder o controle e bater contra uma árvore em São José dos Campos. A família autorizou a doação dos órgãos, e a captação foi concluída em 29 de outubro.
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"As horas que passava para a Shirley [mãe de Cáryta] que estava sendo retirado o órgão do doador, era exatamente também [a hora] que a reportagem falava que o Miguel estava sendo submetido à remoção dos órgãos dele para doação", comenta Carlito.
Por meio das redes sociais, a família de Rondônia conseguiu contato com Ana Tereza Meneses, mãe de Miguel. A partir desse contato, as mães passaram a compartilhar as emoções provocadas pela história. Ana Tereza contou que recebeu uma mensagem de Shirley em um momento de muita fragilidade emocional, enquanto tentava lidar com a perda do filho.
"Eu estava em prantos, pedindo para o Senhor me ajudar, curar o meu coração. Eu falei para ela: 'No momento eu estou em prantos, mas muito feliz porque eu sei que tem uma mãe do outro lado que está feliz, que o meu filho deu vida à filha dela'", relembra.
O pai de Cáryta, Carlito, reconhece que a decisão de Ana Tereza, mesmo em um momento de profunda dor, foi determinante para que a filha tivesse uma nova chance de vida.
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“Para mim, ela começa a viver novamente agora. A restrição que tem uma pessoa que tem uma doença dessa, restrição alimentar, restrição de atividade. A minha filha, ela é impossibilitada de fazer várias atividades. Você vê o sofrimento deles. Então, para mim, agora vai ser um recomeço de vida na vida da Cáryta”, falou o pai emocionado.
Ana Tereza, que antes não tinha plena dimensão da importância da doação de órgãos, hoje tem uma visão diferente sobre o assunto. Para ela, a experiência mostrou como o gesto pode transformar vidas e levar esperança a outras famílias.
“Se as pessoas se conscientizassem da alegria e do amor que recebe ao você fazer um ato desse de doar os órgãos do seu filho, do seu familiar, o retorno é incrível, porque você sente o amor das pessoas em você. Você conseguiu doar os órgãos dele para dar vida a outras pessoas, enquanto vivem aqui na terra, não tem preço, não tem preço”, finalizou.
A decisão que salva vidas
De acordo com o Registro Brasileiro de Transplantes de 2025, elaborado pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), mais de 15 mil potenciais doadores foram notificados no ano passado. Desse total, 4.335 se tornaram doadores efetivos.
O número de recusas familiares chegou a 4.200, o equivalente a uma taxa de 45%. Os dados evidenciam um dos desafios enfrentados pelo sistema de transplantes no país: a decisão das famílias de autorizar ou não a doação dos órgãos de um familiar.
Segundo o relatório, 73.877 pessoas estavam na fila de transplantes em dezembro do ano passado. Em transplantes renais, como o caso de Cáryta, 38.925 aguardavam um rim, entre crianças e adolescentes, 272 esperavam a doação do órgão.
Ana Tereza Meneses, mãe de Miguel, soube da possibilidade de doar os órgãos do filho no hospital, após a confirmação da morte encefálica. A equipe médica explicou como funcionava o procedimento e encaminhou a família para conversar com um profissional responsável por orientar os familiares durante o processo de decisão.
“Eu, meu esposo, o meu filho Benício, um olhou pro outro e foi unânime: 'vamos doar os órgãos do Miguel'. Foi exatamente isso e a gente nunca tinha falado sobre isso e a gente sabia que o Miguel iria fazer isso. Ele faria isso porque ele amava muito as pessoas, ele amava muito os jovens”, comentou a mãe.
Ao todo, Miguel doou coração, rins, fígado e córneas. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, os órgãos e tecidos contribuíram para salvar quatro vidas.




